segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Entendendo os impactos do consumismo

Para aprendermos e refletirmos: um textinho sobre a evolução do nosso atual sistema ecônomico.

O colapso da sociedade de consumo

O físico Fritjof Capra diz que, entre todos os sistemas vivos, o único que tem pretensões de crescer indefinidamente é o câncer. E que nem ele tem êxito. Não é um sistema inteligente, porque mesmo quando consegue atingir seu propósito – driblar o sistema imunológico, espalhar-se pelo organismo que o hospeda e dele se alimentar - está caminhando para a própria morte. Ele esgota a vitalidade do organismo que o alimenta e, claro, morrerá também. Seu objetivo é crescer. Para onde? Para quê? Nem ele sabe, já que o câncer é decorrente de uma mutação no núcleo da célula, que a fez perder a informação da sua função original.

Essa é uma metáfora perfeita para a lógica de mercado que rege diferentes setores da atividade humana - incluindo a gestão das organizações, a ocupação dos espaços, a exploração dos recursos naturais, as relações interpessoais, os valores e hábitos de consumo da sociedade atual – tudo isso com altíssimos níveis de impacto ambiental. Mesmo com todas as evidências de “metástases” – que se expressam em nossa sociedade num modo de viver equivocado e vazio de significado – prevalece ainda o modelo que tem a produtividade e o poder de consumo como indicadores de “evolução”. O importante é crescer. Para onde… e para quê? Parece que já não sabemos mais.

O consumo compulsivo e a obsessão por produtividade são dois lados da mesma moeda e constituem o principal “legado” da era industrial: produzir e consumir. Embora já se reconheça a aurora da era do conhecimento – na esperança de que traga um novo conjunto de valores para a sociedade, a era industrial teima em dar seus últimos suspiros e seus valores ainda estão fortemente presentes no comportamento das pessoas. O valor de uma pessoa na sociedade é medido pelo seu poder de consumo e pela sua capacidade produtiva. Mas é muito evidente que essa prosperidade material não tem um correspondente em termos de riqueza emocional, intelectual ou espiritual. Basta observar como a incidência de estresse e depressão cresceu assustadoramente.

Esse estilo de vida tem relação direta com as mudanças climáticas e geram ou agravam boa parte dos desastres que têm crescido em frequência e intensidade, em diferentes pontos do planeta. As evidências de colapso ambiental, social e econômico apontam a urgência em adotarmos novas abordagens de vida, fundamentadas em um novo paradigma.

Nos anos 80, Duane Elgin foi considerado um visionário por iniciar o diálogo em torno da chamada “simplicidade voluntária” – que é a expressão de um modo de vida exteriormente simples, mas interiormente rico e significativo. Esse estilo de vida apresentava-se como uma resposta ao esgotamento dos valores da sociedade industrial. Para quem pensa que simplicidade voluntária é papo de bicho grilo dos anos 80, acertou. Isso é coisa do passado… de quando ainda tínhamos tempo para decidir. Viver com simplicidade não é mais uma questão de vontade – é uma urgente necessidade. Com o colapso dos grandes centros e a exaustão do estilo de vida baseado no consumo, já estamos em outro estágio em termos de “liberdade”. Cada um tem total liberdade de continuar colocando sua luxuosa e potente “4×4” na rua e, de quebra, levar meia hora para percorrer três míseras quadras no trânsito caótico da cidade. Claro, já que todos decidem exercer sua liberdade de sair de carro… esse é o preço!

Viver com simplicidade não é o mesmo que viver com precariedade. Também está muito distante de qualquer idéia de pobreza. Pelo contrário, a simplicidade cria oportunidade para que a riqueza encontre muitas outras formas de expressão – capazes de gerar felicidade genuína e duradoura. O físico e ex-monge budista Alan Wallace diz que podemos buscar dois tipos de felicidade: a “felicidade do caçador” – que é baseada na escassez, na disputa, no domínio e na atitude predatória - é uma felicidade passageira; e a “felicidade do agricultor” – que é baseada na capacidade de gerar, cuidar, multiplicar e compartilhar – esta é a felicidade duradoura. Simples assim.

Sandra Felicidade é psicóloga, consultora e psicoterapeuta de abordagem sistêmica. É autora do Relações em Jogo® e facilitadora credenciada do Jogo da Transformação® . Colaboradora do NEPED / UFSCar.
Contatos: (41) 9953-6289 / www.sandrafelicidade.com.br/ sandra.happiness@terra.com.br
Jornal do Cidadão Curitibano - o primeiro jornal exclusivamente de serviços de Curitiba
http://www.jornaldocidadao.com.br/blog/simplicidade-involuntaria/

2 comentários:

  1. Pois é, viu só quanta coisa? Então... às vezes me sinto malabarista.

    Mas o mais interessante (talvez vocẽ já tenha passado por isso ou até esteja nessa fase) é que do jeito antigo de agir não funciona mais (em nenhuma área da minha vida), mas eu ainda não sei muito bem quais são as novas atitudes que eu devo e quero tomar. Então fico meio que me assistindo, me redescobrindo, me desconstruindo e reconstruindo...

    E aproveitando as mudanças, vou tentar mudar minha relação com o dinheiro e o consumo também, né? Porque se é pra mudar, que seja tudo então... rsrsrs


    Beijos e muita luz pra você também!

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  2. Oi Mi,
    tb estou passando por este estágio. Tomei algumas decisões, mas ainda estou me adaptando a este novo estilo de viver...um dia de cada vez, com altos e baixos...
    Beijos

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